sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Canto do Piaga - Gonçalves Dias

                Gostaria de analisar aqui um poema de Gonçalves Dias (1823-1864), conhecido representante do Romantismo, que buscava exaltar a nação através das suas origens. Dias buscou muito na figura do Índio brasileiro para  a construção de algumas de suas obras, heroicizando-o.
                É um poeta que admiro pela beleza rítmica de seus poemas, pelas rimas colocadas de modo belo em cada verso, pela musicalidade...O poema em questão chama-se "o Canto do Piaga", publicado em 1846 na obra "Primeiros Cantos". O poema chama a atenção pelo fato do Piaga (o pajé), ser atormentado por um fantasma Anhangá (espírito do mal), que faz predições do que viria a acontecer à tribo, depois da chegada do "homem branco" - tratado no poema como um monstro - que iria profanar toda sua cultura, os Manitôs (divindades) e Maracás (tipo de chocalho que os indios usavam nos ritos). É com beleza que o autor descreve o que de fato viria acontecer as tribos depois dos europeus. Vejamos...


I
Ó GUERREIROS da Taba sagrada,
Ó Guerreiros da Tribo Tupi,
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi.
Esta noite - era a lua já morta -
Anhangá me vedava sonhar;
Eis na horrível caverna, que habito,
Rouca voz começou-me a chamar.
Abro os olhos, inquieto, medroso,
Manitôs! que prodígios que vil
Arde o pau de resina fumosa,
Não fui eu, não fui eu, que o acendi!
Eis rebenta a meus pés um fantasma,
Um fantasma d'imensa extensão;
Liso crânio repousa a meu lado,
Feia cobra se enrosca no chão.
O meu sangue gelou-se nas veias,
Todo inteiro - ossos, carnes - tremi,
Frio horror me coou pelos membros,
Frio vento no rosto senti.
Era feio, medonho, tremendo,
Ó Guerreiros, o espectro que eu vi.
Falam Deuses nos cantos do Piaga,
Ó Guerreiros, meus cantos ouvi!
II
Por que dormes, Ó Piaga divino?
Começou-me a Visão a falar,
Por que dormes? O sacro instrumento
De per si já começa a vibrar.
Tu não viste nos céus um negrume
Toda a face do sol ofuscar;
Não ouviste a coruja, de dia,
Seus estrídulos torva soltar?
Tu não viste dos bosques a coma
Sem aragem - vergar-se e gemer,
Nem a lua de fogo entre nuvens,
Qual em vestes de sangue, nascer?
E tu dormes, ó Piaga divino!
E Anhangá te proíbe sonhar!
E tu dormes, ó Piaga, e não sabes,
E não podes augúrios cantar?!
Ouve o anúncio do horrendo fantasma,
Ouve os sons do fiel Maracá;
Manitôs já fugiram da Taba!
Ó desgraça! Ó ruína! Ó Tupá!
III
Pelas ondas do mar sem limites
Basta selva, sem folhas, i vem;
Hartos troncos, robustos, gigantes;
Vossas matas tais monstros contêm.
Traz embira dos cimos pendente
- Brenha espessa de vário cipó -
Dessas brenhas contêm vossas matas,
Tais e quais, mas com folhas; é so!
Negro monstro os sustenta por baixo,
Brancas asas abrindo ao tufão,
Como um bando de cândidas garças,
Que nos ares pairando - lá vão.
Oh! quem foi das entranhas das águas,
O marinho arcabouço arrancar?
Nossas terras demanda, fareja...
Esse monstro... - o que vem cá buscar?
Não sabeis o que o monstro procura?
Não sabeis a que vem, o que quer?
Vem matar vossos bravos guerreiros,
Vem roubar-vos a filha, a mulher!
Vem trazer-vos crueza, impiedade -
Dons cruéis do cruel Anhangá;
Vem quebrar-vos a maça valente,
Profanar Manitôs, Maracás.
Vem trazer-vos algemas pesadas,
Com que a tribu Tupi vai gemer;
Hão-de os velhos servirem de escravos
Mesmo o Piaga inda escravo há de ser?
Fugireis procurando um asilo,
Triste asilo por ínvio sertão;
Anhangá de prazer há de rir-se,
Vendo os vossos quão poucos serão.
Vossos Deuses, ó Piaga, conjura,
Susta as iras do fero Anhangá.
Manitôs já fugiram da Taba,
Ó desgraça! ó ruína!! ó Tupá!



              Com certeza o poema possui um tom trágico. o monstro (europeu) que viria arruinar as tribos é tratado como o mau. Há um maniqueísmo no poema. Dias, procurando valorizar o Índio, povos originários da nação,  coloca o Europeu como destruidor malvado e profanador. Realmente, quando vemos em história, os fatos que acompanham a colonização sul-americana vemos uma cultura impondo-se sobre outra, e também transformando a outra. Porém o historiador, diferente do 'às vezes trágico' poeta, sempre procura ter um lado mais imparcial possível, procurando não cometer injustiças em suas análises. Ele teme o anacronismo e qualquer tipo de etnocentrismo, que sua análise possa trazer.  É importante a questão ética do trabalho do historiador, que não pode sair fazendo julgamentos apressados sobre fatos num olhar em que o contexto é outro. Porém manter um equilíbrio imparcial é uma tarefa nada fácil. De fato, a maioria dos estudiosos preferem dar suas sentenças e opiniões sobre as coisas.
Seria um absurdo pois, não mostrar as catástrofes da história. Porém, fazer um maniqueísmo, "bom e mau", "vencidos e vencedores" talvez não seja suficiente e nem adequado, no campo da História. Compreendemos G.Dias que é um POETA, num contexto de resgate da cultura nativa, que se tornou-se necessária no contexto da época. E ele faz belamente través de seus poemas. E quem não concorda com ele quanto à barbárie cometida pelo europeu? Será que é cometer anacronismo afirmar isso? Isso ultrapassa o próprio poema....deixemos tais discussões para uma outra oportunidade.


                           Livro- Gonçalves Dias, Primeiros Cantos, Ed. Autêntica

Fabrício César de Aguiar também analisa este poema em- http://www.uel.br/pos/letras/terraroxa/g_pdf/vol21/TRvol21a.pdf





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